O Kendô é uma tradicional arte marcial japonesa cuja origem está nas técnicas de manejo e luta de espadas utilizadas pelos Samurais nos campos de batalha.
Ao se falar sobre Kendô, é quase impossível não mencionar que ‘o Kendô é o caminho da espada’. E, não deixa de ser. A palavra japonesa Kendô é composta por dois ideogramas: Ken (剣) que significa espada e Do (道), caminho.
Mas o que quer dizer ‘caminho da espada’?
No universo das Artes Marciais, a palavra ‘caminho’ adquire o sentido da própria existência, de um estilo de vida. No caso do Kendô, consiste em [1] “disciplinar o caráter humano através da aplicação dos princípios da Katana” (刀) (outra designação em japonês para espada).
E quais são estes princípios?
Estes princípios são a busca do desenvolvimento de corpo e espírito vigorosos por meio de treinamentos intensivos e apropriados no manejo da espada, com a finalidade de tornar o indivíduo capaz de compreender que, o poder adquirido ao se portar uma espada, traz consigo a dimensão da responsabilidade de saber como e quando utilizá-la[2], para o bem do próximo e da sociedade.
Ao longo dos séculos, gerações de mestres têm dedicado suas vidas à transmissão desses ensinamentos.
Este trabalho tem como objetivo dar uma breve introdução à prática do Kendô, sem se atrever, por enquanto, a discursar sobre sua filosofia.
Para contextualizar o assunto, o item Breve Histórico traz um resumo da história do Kendô. O item Fundamentos da Prática do Kendô descreve os elementos básicos do kendô (equipamentos, luta, treinamento). Os dois últimos itens trazem um breve relato do desenvolvimento do Kendô e do Iaidô no Brasil: Panorama do Kendô no Brasil e Um pouco sobre Iaidô.
Não temos a pretensão de realizar um estudo completo sobre o Kendô. Os interessados em informações mais detalhadas poderão recorrer às indicações listadas nas referências bibliográficas.
[3]A origem do que hoje é chamado de Kendô é indissociável da história da classe guerreira do Japão, Bushi (termo genérico) e, em particular, Samurai (elite guerreira). Ao longo do tempo, e muito rapidamente, a Katana (espada) tornou-se a arma mais nobre e apreciada por todas as Bu-jutsu (técnicas de guerra).
Seu desenvolvimento está diretamente ligado a toda evolução da sociedade, da cultura do Japão. No alto escalão da privilegiada casta guerreira na “Idade Média” nipônica, a espada tornou-se o próprio símbolo de poder e das mais altas virtudes humanas: bravura, lealdade, retidão.Possuir, então, uma espada era um privilégio hereditário. A Katana era considerada a própria alma do guerreiro.
Tradicionalmente, a [4]história do Japão costuma ser dividida em:
- Período de Yamato (350-710): tem como celebridade máxima a figura do 1º Imperador do Japão, Jimmu Tenno, guerreiro unificador do Império Yamato, e que, segundo a tradição, seria descendente direto dos deuses. Portava a famosa espada Tsurugui, cuja origem também é dita como divina, e com a qual derrotou seus inimigos.
- Período de Nara (710-794): os primeiros registros históricos oficiais, o Kojiki (712) e o Nihonshoki (720), evocam a prática do “caminho da espada” (Tachi-gaki, Kumi-tachi) dentro da formação do Kugê (nobreza imperial). No final deste período, a Reforma de Taika estabeleceu o serviço militar obrigatório.
- Período de Heian (794-1192): foi o período glorioso dos aristocratas e dos confrontos entre as grandes famílias Taira (Heishi) e Minamoto (Guenji). Foi nessa ocasião que, nas grandes fazendas, formaram-se grupos de combatentes para a autodefesa, que vieram a ser os primeiros membros da futura e famosa classe dos guerreiros: os Samurais.
- Período de Kamakura (1192-1333): neste período, a corte imperial perde o poder executivo para a classe guerreira, e estabelecesse, pela primeira vez, um governo militar, dando início a Era Feudal no Japão. É nessa época que ocorrem os primeiros ataques mongóis, e os militares japoneses têm a oportunidade de constatar a superioridade das espadas de seus inimigos. Conseqüentemente, o final desta era destaca-se pelo incrível avanço nas técnicas de fabricação de espadas.
- Período de Nambokucho (1333-1392): caracteriza-se por um período extremamente atribulado. A disputa de poder força a coexistência de duas cortes, uma sediada em Kyoto, sob o comando do novo Imperador do Japão, Komei; e outra, em Yoshino, sob o comando do Imperador deposto Godaigo.
- Período de Muromachi (1392-1573): este período teve início com a unificação das duas cortes, porém foi marcado por intrigas e jogos de interesse. Tanto que, no fim da era Muromachi, o laço moral que até então unia o senhor (Daymio) aos seus vassalos acabou se deteriorando. Foi uma época trágica de guerras constantes por todo o território nipônico. Porém, nunca se estudou tanto técnicas de guerra. É o início da formação das ‘escolas’ e ‘estilos’ (Ryu) com a sistematização de práticas e treinamentos.
- Período de Sengoku (1573-1576): a tradução Sengoku é ‘país em guerra’. Foi um período de conflitos trágicos, com um poder central sem poder econômico nem militar. Dois fatos marcantes ocorreram nesses três anos: a introdução no Japão das armas de fogo pelos portugueses e do Cristianismo pelos jesuítas espanhóis.
- Período de Azuchi-Momoyama (1576-1615): início dos esforços de reunificação do Japão. Oda Nobunaga reconquista a capital com o apoio dos jesuítas (em troca, Nobunaga permite a construção de igrejas e a divulgação do Cristianismo). De personalidade extremamente agressiva, Nobunaga prossegue em suas conquistas, mas, é morto por um de seus próprios comandantes, antes de concluir seu plano. Após o assassinato de Oda Nobunaga, seu vassalo mais fiel, Toyotomi Hideyoshi termina a conquista do território japonês, consolidando-se com base no desarmamento do povo e no levantamento das terras produtivas. Além de excelente militar, Toyotomi Hideyoshi foi um exímio estadista, sem origem nobre, conseguiu chegar ao posto mais alto do poder (é um dos personagens históricos mais admirados no Japão). O filho de Toyotomi Hideyoshi sobe ao poder após a morte do pai, porém, Tokugawa Ieyassu, um de seus colaboradores mais próximos, toma-lhe o poder, iniciando um novo período na história do Japão. É nessa época que viveu o famoso, quase lendário, samurai Miyamoto Musashi.
- Período de Edo (1615-1868): este período de quase 300 anos foi regido pelas bases estabelecidas por Tokugawa Ieyassu, que ergueu seu governo em Edo (atual Tokyo), assumiu o título de Shogun (‘Generalíssimo’), determinou normas rigorosas para vassalos e lavradores, baniu o Cristianismo, fechou os portos para estrangeiros e proibiu todas as atividades que viessem a contrariar sua política ditatorial.
Foi nesse período que a população foi dividida em quatro classes sociais: samurais, lavradores, artesãos e comerciantes. No início da Era Edo, os samurais eram a classe dominante, possuíam o poder absoluto e seguiam o código de honra denominado Bushido. No entanto, o longo período de paz interna e o isolamento externo acabaram trazendo o ‘desemprego’ para os samurais, e sua decadência foi inevitável. No final da Era Edo, a classe dos guerreiros era formalmente a superior, mas, na realidade, era a mais miserável. Essa mesma paz, porém, fez com que a prática da espada perdesse seu caráter bélico, e o Kendô adquire seu arcabouço filosófico. Os treinamentos passam a serem praticados com bogu (armadura mais leve) e Shinai (espadas de bambu), ao invés de espadas verdadeiras, para evitar ferimentos, em academias (dojos), num formato muito parecido com a prática de hoje.
- Período de Meiji (1868-1912): no final da Era Edo, não apenas a classe dos samurais, mas todo o Japão entra em ‘colapso’, e o desfecho final dessa crise é a Revolução Meiji, movimento chefiado pelos líderes feudais, que derruba a dinastia Tokugawa e restaura o Imperador no poder. Este é o início da abertura do Japão para os países ocidentais, a chamada ‘modernização’. Com a ocidentalização do Japão, o Kendô e o ‘culto à espada’, bem como todas as manifestações da cultura nipônica, entram em declínio. O ‘Espírito da espada’ começa a ser resgatado no final da era Meiji quando o governo imperialista japonês entra em guerra contra a China e a Rússia. As vitórias do Japão nessas guerras provocaram o renascimento do sentimento patriótico e o Kendô passa a ser incorporado nas escolas.
- Período de Taisho (1912-1926): os problemas políticos e econômicos iniciados no final da era Meiji causados por uma postura imperialista haviam deixado o país numa situação de declínio. Paradoxalmente, a participação do Japão na 1ª Guerra Mundial (que ocorreu sem dano considerável) foi uma oportunidade para o país equilibrar-se razoavelmente. O espírito nacionalista renovado por essa melhora faz com que o Kendô volte a ser valorizado, agora, como um dos pilares da educação nacionalista.
- Período de Showa (1926-1989): sem dúvida, o fato mais marcante deste período foi a 2ª Guerra Mundial. Em 1945, após a total rendição dos japoneses, os americanos consideraram a prática do Kendô agressiva aos militares aliados, esta idéia causou conseqüências devastadoras para o Kendô, pois as autoridades americanas simplesmente proibiram a sua prática. Essa proibição só foi suspensa em outubro de 1952, quando foi criada a Associação Japonesa de Kendô, com o princípio de que o Kendô não era apenas uma arte marcial, mas também um esporte educacional.
[8]Em 1970, é criada a Federação Internacional de Kendô (IKF – International Kendo Federation), entidade máxima do kendô mundial, sediada no Japão.
- Período de Heisei (1989 – atual): no Japão, atualmente, cerca 1,2 milhões de pessoas praticam Kendô. Isto representa quase que 75% dos Kendocas espalhados no mundo, em quase 50 países que possuem entidade formal organizada reconhecida pela IKF (International Kendo Federation). No Japão, o Kendô é atividade curricular nas escolas elementares e está presente nas faculdades, nas academias de polícia e de bombeiros, e até mesmo em templos religiosos.
Desde 1970, a cada 3 anos, é realizado o Campeonato Mundial de Kendô que, este ano (2003), em sua 12ª edição, acontecerá na primeira semana de julho, na cidade de Glasgow, na Escócia.
Apesar da inegável hegemonia japonesa, tanto no número de praticantes, quanto nos resultados dos [8]Campeonatos Mundiais (até hoje, os japoneses foram os campeões em todos os Campeonatos Mundiais), a prática do Kendô vem crescendo em outros países, destacando-se a Corea, os Estados Unidos, países europeus como França e Inglaterra, e o Brasil.
Atualmente, [5]existe uma grande discussão sobre a questão se o Kendô deve ou não ser transformado em um esporte olímpico.
Uma vez que o Kendô já está sendo praticado por tantas pessoas em tantos países, porque não levá-lo para as Olimpíadas? Seria duplamente benéfico, para o Kendô, por trazer divulgação e crescimento, e para a sociedade que teria oportunidade de conhecer e apreciar a beleza do esporte e da filosofia do Kendô.
Mas a questão não é tão simples. Os que defendem a idéia de que o Kendô não deve ser transformado em esporte olímpico argumentam que o Kendô não é apenas uma modalidade esportiva, e temem que, com a exposição dada pela participação nas Olimpíadas, o Kendô venha a se transformar em um esporte excessivamente competitivo de alta-performance e comercial, a exemplo do que já ocorre com outras artes marciais, e que perca sua parte filosófica. Seria lamentável ver tudo reduzido a uma ‘busca pelo Ouro’.
Existe uma ‘terceira via’, que vem ganhando adeptos, que considera levar o ‘Kundo’ (ou ‘Kumdo’) para as Olimpíadas. O nome ‘Kundo’ é a pronúncia coreana da palavra Kendô, mas costuma ser utilizado para referenciar o estilo de luta dos Kendocas coreanos. Um estilo agressivo, extremamente combativo que, segundo especialistas, não prima pela técnica e abusa da força bruta, mas que, de qualquer forma, tem se mostrado eficiente nas competições.
Devemos ter o físico bem preparado e disciplinado para suportar o treinamento, que nos levará ao aprimoramento e domínio do movimento corporal sincronizado com o movimento da espada. Só assim, poderemos executar o golpe. O golpe, por sua vez, será tão eficiente quanto o nosso grau de concentração e equilíbrio.
Como o Kendô envolve o manejo de um instrumental, recomenda-se a idade mínima de 07 a 08 anos, que é quando a criança já conseguiu acumular e desenvolver, naturalmente, o controle motor, ou seja, coordenação suficiente sobre seu próprio corpo para poder aprender a lidar com a espada.
A partir dos 08 anos, o Kendô pode ser praticado por qualquer pessoa, sem limite de idade. Mais do que isso, o Kendô pode ser praticado entre pessoas de qualquer idade. Talvez esta característica explique a popularidade do Kendô com o público adulto.
Como já mencionamos, durante o Período de Edo, por volta de 1750, os treinamentos de Kendô passaram a serem feitos com equipamentos protetores e espadas de bambu, precursores dos atuais bogu e shinai.
- Shinai: espada feita de bambu ou material sintético (fibra de carbono), deve medir de 114 cm a 120 cm e pesar de 400 g a 510 g, de acordo com a categoria.
A etiqueta do Kendô recomenda que o Kendôka, ou kenshi, cuide da manutenção de seu vestuário, bogu e shinai, mantendo-os sempre impecavelmente limpos e em ordem.
O Kendôka deve estender este hábito para o seu dia-a-dia e vida profissional, tomando o mesmo cuidado com suas roupas e seus instrumentos de trabalho.
A luta é realizada em uma área quadrada ou retangular, cujas laterais podem ter de 9 a 11 metros.
Início do combate:Os mesmo elementos citados no início deste capítulo.
Por se tratar de uma luta, os adversários devem obviamente mostrar combatividade. No entanto, a etiqueta do Kendô recomenda algo mais. É necessário, demonstrar também o máximo respeito ao oponente.
Em japonês, a palavra AITE significa adversário e parceiro, pois o adversário é parceiro. Sem ele, não teríamos a oportunidade de lutar e de progredir, razão pela qual ele deve ser respeitado.
Novamente, levando este conceito para o dia-a-dia, devemos respeitar todos, colaboradores e concorrentes, pois todos são importantes para nosso crescimento.
Luta competitiva:
O treinamento básico ensinado para os iniciantes é chamado de Kihon.
São exercícios de movimentos repetitivos, cujo objetivo é moldar os movimentos básicos:Além disso, os exercícios de Kihon visam formar as noções de distância e tempo em relação ao adversário. Esta noção espacial é denominada Maai.
Exemplos de exercícios de Kihon:Apesar de serem aplicados para os iniciantes, os exercícios de Kihon devem ser sempre praticados pelos Kendocas ao longo de toda sua vida.
Exercícios mais sofisticados, que treinam técnicas especiais de ataque e defesa são chamados de Waza.
Exemplos de exercícios de Waza:O treinamento de Kendô começa e termina com uma reverência ao dojo. No início, se pede permissão para treinar, e proteção para que ninguém se machuque durante o treinamento. No final, a reverência serve para agradecer duplamente pelo uso do local e pela proteção recebida.
Mais uma vez, no nosso cotidiano, é evidente, a analogia com relação a ter respeito pela nossa casa, pelo nosso local de estudo ou trabalho.
A história das artes marciais japonesas no Brasil, entre elas o Kendô, começa com a chegada dos primeiros imigrantes japoneses no Brasil, em 1908.
Inicialmente, o Kendô foi praticado individualmente pelos imigrantes e seus descendentes, principalmente no interior do estado de São Paulo.
Em 1933, na comemoração dos 25 anos do início da imigração japonesa, os praticantes de judô e Kendô fundaram a primeira associação brasileira de judô e Kendô, a “Hakoku Ju-Ken Do Ren-Mei”. Desta época, destacam-se os nomes dos mestres Eiji Kikuchi Sensei, Ryunosuke Murakami Sensei e Kobayashi Sensei.
O Kendô também era ensinado nas escolas de língua japonesa existentes nas colônias. Tamaki Sensei iniciou seus Marília em 1938. Kasai Sensei em Bauru.
A derrota do Japão na 2ª Guerra Mundial também afetou a vida dos japoneses aqui no Brasil. Escolas de língua japonesa foram fechadas e qualquer manifestação da cultura japonesa foi proibida.
Para piorar as coisas, no caso das artes marciais e principalmente do Kendô, sérios [7]incidentes envolvendo imigrantes japoneses que se recusavam a aceitar a derrota do Japão, por pouco não levaram a expulsão dos japoneses do Brasil.
Desta forma, o Kendô só volta a ser praticado no Brasil, depois do final da 2ª Guerra Mundial, e só toma contornos mais organizados, alguns anos depois, com a fundação da Associação Brasileira de Kendô (“Zen Haku Kendô Ren-Mei”, em japonês), em 1959.
Neste período, começam a atuar intensamente como grandes praticantes e mestres: Haruka Yamashita Sensei, Frederico Fujihara Sensei, Terukumi Eikawa Sensei, Matao Taniguchi Sensei, Tomitoshi Toita Sensei, Sukeo Aoki Sensei, Mitsuo Kimura Sensei, Masatoshi Yoshimatu Sensei, Yoshikata Kiyohara Sensei, Ichiro Orui Sensei, Takano Sensei, Kosho Higashi Sensei, Isao Murakami Sensei, Tamotsu Taniguchi Sensei, Narimoto Yoshida Sensei, Hareru Yoshida Sensei, Nobuo Tanabe Sensei, Shinken Sakamoto Sensei, Kikuo Iwase Sensei, Chicara Fukuhara Sensei, Kanae Tsukamoto Sensei, Yoshio Someya Sensei, Miyoshi Aoki Sensei, Tatsumi Toyofuku Sensei, Otsuki Sensei.
Na cidade de São Paulo, os primeiros treinamentos foram provisoriamente realizados no centro da cidade e posteriormente, no inicio da década de 1960, passaram a ocorrer na sede de um dos primeiros clubes fundados pela comunidade nipo-brasileira, a Associação Cultural e Esportiva Piratininga.
É desta forma que a ACEP - Associação Cultural e Esportiva Piratininga está ligada ao Kendô desde sua origem, mantendo até hoje o treinamento de Kendô como um dos grandes destaques em seu quadro de atividades.
Além disso, a ACE Piratininga é o principal local de realizações de eventos oficiais, apresentações, campeonatos e exames de graduação da CBK (Confederação Brasileira de Kendô) e CSK (Confederação Sul-americana de Kendô).
[10]Fotos dos primeiros Campeonatos de Kendô realizados no Brasil:
2º Campeonato Brasileiro de Kendô (1961 / ACE Piratininga – São Paulo/SP)
4º Campeonato Brasileiro de Kendô (1963 / ACE Piratininga – São Paulo/SP)
7º Campeonato Brasileiro de Kendô (1966 / ACE Piratininga – São Paulo/SP)
Acompanhando a evolução do Kendô no Japão, considera-se que a era moderna do Kendô no Brasil começou na década de 1970. É nesta época, que Chicara Fukuhara Sensei viaja para o Japão retorna para o Brasil trazendo os ensinamentos e orientações do novo Kendô dos mestres japoneses. Este fato pode ser considerado um dos principais marcos do início do Kendô contemporâneo no Brasil.
A partir de então, o Kendô passa a ser cada vez mais praticado, principalmente na cidade de São Paulo e no interior do estado.
[9]Como fatos marcantes que acompanham este crescimento, podemos citar:O número estimado de praticantes de Kendôno Brasil é pequeno, cerca de 900 praticantes, sendo que apenas 80% são federados a CBK.
[9]No total, existem 31 academias de Kendô filiadas a CBK, a maioria concentrada no estado de São Paulo. As outras estão localizadas nos estados do Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Distrito Federal, Pernambuco e Espírito Santo.
Anualmente, a CBK realiza três campeonatos de abrangência nacional:Em paralelo aos dois primeiros campeonatos citados acima, são realizados os Exames de Graduação de Kendô, que recebem candidatos não só do Brasil, como de outros países da América Latina, pois o Brasil é o único país latino-americano credenciado pela FIK para realização desses exames ate o 7º grau.
As academias de Kendô também promovem seus próprios campeonatos. Além disso, a CBK e a FPK promovem, regularmente, seminários e simpósios de treinamento técnico e de arbitragem. O calendário de atividades de Kendô é composto por vários campeonatos interclubes, dois seminários técnicos e dois simpósios por ano:O desenvolvimento do Kendô no Brasil é resultado do esforço e da dedicação voluntária e incondicional de dezenas de senseis. Apenas citando alguns deles: Tadashi Tamaki (atual presidente da CSK), Lenato Norio Yamada, Yoshinobu Endo, Ciutoco Kogima (atual presidente da CBK), Yoshinobu Hayashi, Hiroyoshi Ishihashi, Massao Takizawa, Fuki Toita, Akinori Kojima, Yoshiaki Kishikawa, Michiko Kishikawa, Susumu Watanabe, Hirotaka Onaka, Tadao Ebihara, Constantino Messinis (atual presidente da FPK).
Ainda não filiados a CBK, existem praticantes individuais e pequenos grupos em vários estados brasileiros.
No Japão, em outubro de 1967, foi realizado o Campeonato Mundial de Confraternização, na cidade de Tóquio, Nesta ocasião, os nove países participantes, incluindo o Brasil, representado pelos kenshis Senji Suguino e Akinori Kojima, na qual decidiram organizar o 1º Campenato Mundial de Kendô.
O 1º Campeonato Mundial de Kendô foi finalmente realizado em abril de 1970 nas cidades de Tokyo e Osaka no Japão. Neste campeonato, a equipe brasileira composta pelos kenshis Tomiyoshi Toita, Frederico Fujihara, Mitsuo Kimura, Y. Yoshitaka, Kosho Higashi, Ichiro Orui, Isao Murakami, F. Yamaasa, Y. Nagahashi e K. Takazawa conquistou o 3º lugar na modalidade Equipe Masculina.
[10]Entrada da equipe brasileira no 1º Campeonato Mundial de Kendô (1970 - Japão)
Deste então, o Kendô brasileiro vem sendo muito respeitado internacionalmente, não só por sua estrutura organizacional, como também pelos expressivos resultados alcançados nos campeonatos mundiais.
| Edição | Ano | Local | Modalidade | Colocação |
|---|---|---|---|---|
| 1º WKC | 1970 | Tóquio/Japão | Equipe Masculina | 3º lugar |
| 5º WKC | 1982 | São Paulo/Brasil | Equipe Masculina | 2º lugar |
| 6º WKC | 1985 | Paris/França | Equipe Masculina | 2º lugar |
| 7º WKC | 1988 | Seul/Corea | Equipe Masculina | 3º lugar |
| 10º WKC | 1997 | Kyoto/Japão | Equipe Masculina | 3º lugar |
| 11º WKC | 2000 | Santa Clara/EUA | Equipe Feminina Equipe Masculina |
2º lugar 3º lugar |
Em 2006, o 13º Campeonato Mundial foi realizado em Taiwan.
E o próximo, ou seja, o 14º Campeonato de Mundial de Kendô será realizado aqui no Brasil na cidade de São Paulo, em Agosto de 2009.
O Iaidô tem as mesmas raízes do Kendô, com a peculiar diferença de que sua ‘origem’ é atribuída a uma pessoa, Hayashizaki Jinsuke Minamoto no Shigenobu, nascido em 1549.
Resumidamente, diz a história[3] que, antes de completar 20 anos, Hayashizaki teve seu pai morto em duelo, e que para preparar-se para vingá-lo, retirou-se por 100 dias no templo shintoísta Hayashizaki (origem de seu nome), e que neste local recebeu a inspiração para a criação de uma técnica de manejo de espada (katana), Hayashizaki-Ryu, que é considerada a origem do Iaidô.
De forma bem simplificada, pode-se dizer que a prática do Iaidô é composta por uma série de movimentos com a espada onde o praticante enfrenta inimigos imaginários, em diferentes situações de combate.
Filosoficamente, o objetivo do Iaidô, da mesma forma que o do Kendô, é moldar mente, corpo e espírito por meio do treinamento correto no manejo da espada.
Ao longo dos séculos, foram criadas inúmeras escolas de Iaidô. Os dois troncos principais são chamados: Muso Shinden Ryu e Muso Jikiden Eishin Ryu.
Atualmente, a forma básica do Iaidô, o Seitei-Iai, estabelecida pela AJKF (All Japan Kendô Federation), é composta por 12 movimentos, padronizados para efeito de exames de graduação. Os estilos das escolas tradicionais de Iaidô, genericamente denominas Ko-Ryu (estilos antigos) continuam sendo praticados juntamente com o Seitie-Iai.
No Brasil, o início da prática do Iaidô se confunde com o início da prática do kendô, ou seja, com a chegada dos primeiros imigrantes japoneses no Brasil, em 1908. Porém, a chegada de dois senseis do Japão no Brasil, primeiramente, Asahi Sensei, em meados da década de 1970, e posteriormente, Nakakura Sensei, é considerada um ‘marco’ do início da era moderna do Iaidô no Brasil.
Muitos dos atuais Senseis de Iaidô, incluindo Kiyohara Sensei, Tadachi Tamaki Sensei (atual presidente da CSK - Confederação Sul-americana de Kendô, e fundador da CBK) e Kimura Sensei (que atualmente, com mais de 90 anos, continua a praticar, com o vigor invejável, tanto Iaidô quanto Kendô), começaram a praticar Iaidô sob a orientação dos Senseis Asahi e Nakakura. Este último realizou o primeiro exame de graduação de Iaidô no Brasil.
Mais recentemente, dois eventos contribuíram para a expansão do Iaidô no Brasil.
O primeiro foi o início das visitas anuais, organizadas pela CBK (a partir do final da década de 1990) de senseis japoneses ao Brasil, destacando-se entre eles, Tomoharu Ito Sensei, 8º Dan Kyoshi de Kendô e Iaidô, que desde então já esteve no Brasil três vezes, para ministrar treinamentos e participar de bancas examinadoras.
O segundo foi a chegada, em 2003, de outro sensei japonês, Toshihiko Tsutsumi, 6º Dan em Iaidô. Tsutsumi Sensei é tido como o mais jovem praticante a ter recebido essa graduação (35 anos de idade). Foi aluno de um dos três últimos 9º Dan. Seu Sensei foi aluno direto de Hakudo Nakayama (1873-1958), fundador do estilo Shinden Ryu Iai.
Atualmente, o Iaidô é praticado por dezenas de Iaidokas no Brasil. No estado de São Paulo, as academias de Piratininga, Bandeirantes e São Carlos oferecem treinos regulares de Seitei Iaidô, segundo as normas da FIK (Federação Internacional de Kendo), sob a supervisão da FPK (Federação Paulista de Kendo) e CBK.
O último exame de graduação de Iaidô realizado no Brasil ocorreu em julho de 2005, quando fizeram parte da banca examinadora os senseis: Tadachi Tamaki, Tomoharu Ito e Toshihiko Tsutsumi.
Este trabalho foi originalmente escrito pela Srta. Élia Yathie Matsumoto no ano de 2003 como monografia de conclusão do curso de “Introdução à Educação Física e Caracterização da Profissão” promovido pelo CREF4/SP para profissionais de educação física não-graduados, e, desde então, tem sido revisado e complementado com a colaboração de mestres de kendô e kendokas do Brasil.
O objetivo deste texto foi aproveitar a oportunidade dada pelo Curso para Profissionais Não-graduados em Educação Física para apresentar rapidamente os conceitos gerais e básicos do Kendô.
Acreditamos que possa servir como um pequeno ‘cartão-de-visita’ para os que estão começando a entrar em contato com esta arte marcial, e como uma compilação de referências, para aqueles que já têm algum contato com o Kendô e estão procurando aprofundar seus conhecimentos a respeito do assunto.
O Kendô tem suas bases sustentadas por três pilares filosóficos: o Shintoísmo, o Budismo e o Confucionismo.
O Shintoísmo é a religião original do povo japonês. É essencialmente panteísta, ou seja, reconhece a divindade em tudo que existe na natureza. Desta forma, o Shintoísmo nos ensina a respeitar e zelar pela natureza e o meio-ambiente.
O Budismo é a religião oficial do povo japonês. Tem como elementos mais característicos a idéia da reencarnação e o conceito de ‘causa-e-efeito’. Com o Budismo, aprendemos a respeitar e zelar pela família e antepassados. Num contexto mais abrangente, ‘família’ e ‘antepassados’ ganham o significado de ‘amigos’ e ‘professores’, ou seja, todas as pessoas que nos cercam.
O Confucionismo é mais uma filosofia política do que religião. Dela podemos abstrair que devemos respeitar, zelar e trabalhar pelo bem estar da nossa comunidade, sociedade e país.
Neste sentido, os esforços realizados cotidianamente por todos nós para colaborar com o aprimoramento dos serviços prestados à sociedade, alinham-se com os mais nobres princípios que devem ser seguidos pelos praticantes de Kendô.
[1] TAKIZAWA, Massao – Manual de Kendô – São Paulo/SP, ABRAKEN, 1995.
[2] OZAWA, Hiroshi – KENDO, The definitive guide – Japan, Kodansha International, 1997.
[3] HABERSETZER, R., LOBO, J., SANTORO R. – Découvrir et Pratiquer le Iaido – Paris/França, Editeur Amphora, 1996.
[4] YAMAZATO, Augusto – História Ilustrada do Japão – São Paulo/SP, Editora 5 Cores, 1967.
[5] Revista Kendo Nippon (剣道日本) Nº 325 (Abril/2003) – Tóquio/Japão, Ski Journal, 2003.
[6] MATSUNOBU, YAMAZAKI, NOJIMA - Kendo (剣道)– Tóquio/Japão, Seibido Sports Series, 1987.
[7] MORAIS, Fernando – Corações Sujos – São Paulo/SP, Companhia das Letras, 2000.
[8] Site da IKF, International Kendo Federation: www.kendo.or.jp.
[9] CBK (Confederação Brasileira de Kendô) e FPK (Federação Brasileira de Kendô).
[10] Fotos cedidas por Kanae Tsukamoto Sensei.
- Tadachi Tamaki Sensei
- Akinori Kojima Sensei